quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Viajando na maionese


O que te serve de inspiração? O que te faz suspirar? Consegue responder a essas duas perguntas sem pensar muito? A cada dia que passa, conheço-me mais e sinto um enorme alívio surgindo. Um alívio doce e sincero, para servir-me de inspiração para escrever, para viver e para cantar.

Antes percebia em mim uma distância pertinente e sorrateira que hoje se foi, tão sólida. Gosto de caminhar ao vento e perceber detalhes da criação, detalhes de vidas jogadas e detalhes de amores perdidos por aí. Cada folha caída no chão traduz mais um pedacinho de mim que se renova. Conquista!

Num dia qualquer, passeando pelo centro, pensei que tomar um café iria tornar-me mais vívida. Procurando por algum lugar para me encostar, acabei entrando em uma cafeteria simples. As cadeiras eram de madeira rústica, pintadas em amarelo e azul bebê. As mesas eram pequenas e redondas com acabamentos faltosos e jogadas pelo tempo. Todas as toalhas traziam estampas florais em tons de vermelho, o que notei não combinar muito com o restante da decoração. Apesar de constatar que aquilo não era bem para decorar, mas para acalmar. Mas não pude deixar de reparar em cada vida deixada por ali.

Depois de reparar em cada detalhe e de sentar-me com tamanha destreza, fui diretamente ao meu pedido: um café simples com açúcar, exatamente uma xícara pequena. Comecei então a pensar em como sou um tanto estranha para fugir do aconchego do meu quarto para sentar-me, sozinha, em uma cafeteria meio acabada que parou no tempo. Quê sonhos estou alimentando? O que tenho transparecido? Por qual motivo pretendo viver apaixonada pela vida? 

Da janela pequena e um pouco suja, fiquei a observar as pessoas que iam e vinham para lugares que não tinha alguma vontade de descobrir. Percebi um casal discutindo, uma mãe brigando com seu filho, uma moça que ficou a me encarar enquanto a encarava, um idoso comprando seu jornal do dia, uma moça de seus vinte e poucos anos passeando com seu cãozinho... Os olhos destas pessoas eram os mesmos: distantes e tristes. Até podem enganar a outras pessoas que estão mais felizes que nunca, mas não me enganam. 

Primeiro pois saí de casa sozinha, sem tecnologia e sem meu caderninho de rabiscos; segundo porque meus pés estavam relaxados demais naquela posição e minhas mãos estavam sobre a toalha delicada; terceiro porque amo essa vida; quarto pois a maneira como andam e se comunicam transparece desespero e não felicidade; quinto porque minha cabeça não girava como em outros dias, e estava leve demais para não notar a presença de tristeza alheia; e por último, porque esse lugar de cantos e encantos livres e claros, fez-me perceber o quão rejeitada estava sendo. Não por pessoas, mas por mim mesma.
Fiquei em média, presa com meus pensamentos, umas duas horas e meia. Nesse tempo, havia tomado dois cafés e dois sucos naturais de morango. Decidi então levantar-me e pagar minha pequena conta para voltar á realidade de dias frios e dias muito quentes. Chegando ao balcão, uma moça sorridente me entregou um bilhetinho de 'volte sempre'. Agradeci com outro sorriso, mas fui surpreendida pela dona da cafeteria que me puxa pelo braço. Senti uma leve puxada boa, então virei-me e logo ela diz:

- Posso saber o motivo de uma moça tão bonita estar sozinha? - disse diretamente.

Respondo com uma rapidez assustadora:

- Não quero perder o brilho em meus olhos. - falo, olhando para o teto. Devo ter corado de tanta vergonha.

A mulher torna a falar:

- Reparei que ao seu lado estivera um moço forte, que enquanto olhava para fora com você, acariciava seus cabelos lisos negros. Ele dizia que você é especial.

Não consegui responder. Não consegui mover-me e de repente, vi-me correndo para as ruas para adentrar o mais rápido possível meu quarto e ter em mãos meu caderninho de rabiscos. As ideias foram brotando... Teria sido eu, tocada por um anjo, protetor? Ou a situação ficara pesada demais para suportar?